Não sei se quem está lendo este blog já teve contato com ônibus cheio, mas bem cheio nos horários de rush. Já? Sabe como é? Não? Nem pode imaginar? É uma coisa de louco já te adianto. Se bem que na era metrô, muita gente boa tem ficado bem apertadinha dentro dos modernos trens igualzinho aos que utilizam os vagões dos trens da Central do Brasil que nos levam para os subúrbios da cidade errejota.
Eu, durante uma pequena parcela de tempo, somente 30 anos, mentira, a vida toda, viajei de ônibus, trem e metrô. Comecei na adolescência e cheguei à idade adulta dentro do famoso “buzão”.
Já peguei festas de aniversários, casamentos, fins de namoros, assaltos, pagodes, inícios de namoros, brigas pelo timão do coração, enfim, tudo que muita pessoa nem imagina que possa acontecer. Acontece. Vou detalhar algumas situações só para dar uma ideia do que é a coisa.
Aniversários.
Devido ao convívio com os mesmos passageiros durante anos, comemoramos seus aniversários com bolo, bola, presente e é claro com vários Parabéns pra Você, visto que a cada ponto entra um passageiro que participou da vaquinha, e aí já viu, haja garganta para tanta musiquinha. A bandeja de brigadeiro tinha que ser amarrada, pois ela ia e não voltava, tinha que ser puxada bem forte caso quisesse comer unzinho só, e depois que dávamos um puxão forte alguém lá trás gritava justificando a prisão da bandeja: Marcileide você não está de dieta? E como todos já sabem e que fazem dieta, 7:30h ainda é muito cedo para comer açúcar nesta quantidade absurda. Os salgadinhos deixavam as mãos sujas e quase sempre nesses dias chegava no escritório com as roupas manchadas de gordura. Agora pior mesmo é segurar o copo de refrigerante, visto que cerveja de manhã não rola, mesmo que alguns se recusassem a colaborar, pois não ia ter a “loura gelada”. Imagina ter que levar isopor pra dentro do ônibus com alguns refrigerantes? Aquela garrafa pet é um inferno. Abrir a tampa com os dedos engordurados e o ônibus andando é coisa para macho e assim que começa a derramar o líquido no copo a garrafa fica meio que mole e passa a ser complicado encher o segundo copo.O trabalho vai aumentando o grau de complicação e lá vem reclamação: o copo do Vanderson tá mais cheio que o meu!!! Dez minutos de festa já vira um pesadelo, deu para perceber que com cerveja junto não iria dar boa coisa? Comemorávamos também o aniversário do motorista, ele coitado é o único aniversariante que não pode ganhar os abraços, só os tapinhas na cabeça com os votos de “saúde cabeção”, vamos beber todas, hem? “aha, uhu, o motorista vamos comer o seu bolo”, olha o poste, olha a curva, e por aí vai. E ele ficava sentadinho com o sorriso colado na orelha cheio de orgulho de ser tão querido por seus passageiros.
Ah, esqueci das curvas. Pessoa amiga, você nem pode imaginar o que é segurar o copo plástico, o bolo com um brigadeiro num guardanapozinho com uma mão e a outra segurar o ferro, pois o ônibus vai fazer a curva, não tem educação que resista, na melhor das hipóteses a um banho de chocolate.
No dia seguinte à comemoração as colocações eram ótimas. “ Porra Creusinete, o salgadinho que tu comprou me deixou com azia o dia inteiro. Tive que dar os que levei no meu copo para o chefe.”
“Eu também dei os meus pra aquelazinha do escritório. (Essa história fica para depois) “Aquele risole de camarão hem, nem a cabeça tinha. Deram banho no bicho e fizeram a massa com a água”. "Da outra vez deixa que o Paulo compra o bolo da padaria em que ele trabalha e ponto final" E o Paulo dizia que não compraria nada para depois o povo ficar reclamando que o bolo estava ruim e ele não queria se aborrecer. E no meio de tanto disse me disse já íamos marcando no calendário o próximo aniversário que seria comemorado no ônibus.
Isto posto, o nosso ponto chegava e íamos felizes para casa ou para mais um dia de jornada.
Fim de namoro.
Você já presenciou fim de namoro de dia, no claro, dentro de um ônibus lotado? É a visão do inferno. Minha filha, este era, e com certeza sempre será o pior momento. Visualiza.
Segunda-feira, você cansada pra caramba, doida para que seu João, o senhorzinho que está a um passo de se aposentar, que senta e dorme, sente ao seu lado antes da Fernanda e não ter que ouvir todo o relato de sua pegação na boite, senta a Suzana, Suzana meu Deus, é soco na boca do estômago, e de pé fica seu futuro, ex ou namorado dando explicações: “Bunzunguinha, fica chateada não, eu só virei à cabeça, pois estava acertando meu torcicolo. Nem vi que ela estava de shortinho azul, fita no cabelo, cabelo esticado igual quiabo, salto alto e top.” “ Tá vendo que tu viu, ta vendo que tu tava mal intencionado? “ Puxa Romualdo, estiquei tanto o cabelo que quase deixei minha casa sem luz, saí de casa antes do sereno para ele não encolher, e tu nem nota nada. Agora, pra ver aquela de shortinho você virou tanto à cabeça que chegou a entornar a cerveja errando a boca e me diz que tava com torcicolo? ” Bunzum, vi não, Cristina, diz pra ela que eu não vi. Aí você já está na confusão. Olha pros dois com cara de quem diz, não vou me meter nessa não. Mas não adianta, já é tarde e eles te cutucam, pedem sua opinião, relembram fatos passados, te colocam de novo na ciranda e você não vendo a hora de chegar seu ponto. Porcaria, batida...droga, engarrafamento monumental.
Assalto.
Sinceramente, o cara que acha que roubar um ônibus lotado é moleza é melhor mudar de profissão e partir para as campanhas políticas. Estava eu indo para faculdade quando um cara tentou puxar minha mochila. Tive a certeza que ele não sabia que estava dentro de um ônibus família tipo os Três Mosqueteiros, um por todos, todos por uma.
Comecei a sentir algo estranho em minhas costas quando percebi o brigadeirão suado, fedendo pra caramba atrás de mim. Ele deu um jeitinho de colocar sua mãozona por dentro da alça de minha bolsa e começou a puxar. Ele para um lado eu para o outro. Dei um passo pra frente e pedi ajuda. Olha, o cara saiu do ônibus sabendo que naquela linha não se assalta ninguém.
Um outro assalto já quase no ponto final, traumatizou minha amiguinha. Nada que ela tinha interessou o assaltante e ela foi a única que chegou em casa sem ter o que contar. Sorte dela e ela nem percebeu. Queria porque queria ser assaltada. Veja só.
O Tarado.
Chego no ônibus e vejo uma única vaga no corredor. Penso, que sorte ainda ter lugar. O sujeito que está na janela olha pra trás, vê que é mulher e muda de posição sentando no corredor. Penso de novo, que sorte uma janelinha pra mim.
Sento toda boba, e no caminho antes do ônibus começar a encher começo a sentir o cara toda hora me esbarrando. No ônibus quase sempre vamos colados uns nos outros, mas o negócio era diferente. Ele tava que meio chamando a minha atenção. Por duas vezes olhei pra cara dele com “cara de enterro” mais não adiantou nada, ele continuou a se mexer e me incomodar. Foi quando numa curva olhei pra baixo e vi aquele cogumelo enorme saindo pela barguilha do cara.
Nossa que monstro, comecei a berrar, fiquei em pé e comecei a bater no cara com o meu fichário e logo obtive ajuda. Ele foi convidado a se retirar do ônibus com suas calças abertas e gritando que, não fiz nada, não fiz nada, essa mulher é maluca.
Início de namoro.
Já falei do término, mas do início é uma melação só. Cada dia uma roupinha nova, um cabelinho bem lisinho, um batonzinho de cor forte, as pernocas de fora, sorrisinhos, perfume torturando o ônibus todo, tudo para chamar atenção da princesa ou do príncipe encantado.
“ Creusinete chama ele pro pagode. Chama vai”
“ "Sai fora Fernanda, já é o terceiro no mês”.
“ Chama logo que o ponto dele tá chegando”.
“ Vou não, chama você, tu que tá afim.”
“ Pô quebra essa, faço sua unha de graça mesmo com aquela encravada que dá dó”.
“ Tá, mas caramba você pegou pesado”.
“ Risonaldo, qual é a boa pro findi?”
“ A parada que você me chamar”
“ Nossa, tô com essa bola toda?”
Sinto os olhos da Fernanda fuzilar Creusinte, mas o convite já estava a caminho.
“ Vai rolar um pagode e minha amiga Fernandinha está junto na parada, quer vir com a gente?
“ Demorou Creu, partiu.
Chega o ponto do bofe e as duas meio que sem se falar pois pintou um clima diferente, mais 1 a zero para Creusinete.
Liga não Fê, homem é assim, na hora você entra linda e ele muda logo de ideia, afinal quem é a manicure mais linda do bairro?
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